
" Minha força está na solidão.Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro de noite" (Clarice Lispector)
Lendo essas palavras, o mais impressionate, porém, não é a ideia de que minha força possa estar na solidão, e sim que eu tenha me acostumado com isso.
Saia de casa.Vá à festa.Ao bar. Ver gente, dizem.Não sendo possível existem entorpecentes ao alcance da mão: a televisão solidária, um livro, um toque no celular com uma nova mensagem de texto. Amizades ligth.
E a solidão, aquele monstro, fica ali no canto de olhos meio vidrados, se esquecendo de rosnar.
Mas e se minha força estiver na solidão e eu estiver por pura tolice, confundindo heróis e vilões?
Afinal, eu também sou o escuro da noite.Eu também sou o que sobra em casa depois que todo mundo saiu e o que sobra na cidade depois que todo mundo foi dormir.Eu também sou isso , o silêncio que existe de dentro para fora, como algo que se alastra, que transforma até o ruído externo numa coisa sem sentido.Eu também sou eu apenas, eu só.E mais nada nem ninguém.Também sou a voz que ninguém ouviu.
É preciso grande humildade para coabitar comigo, para não ter medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, e não camuflá-las com autoajuda.Mas só tenho como ser o claro do dia sendo, também, o escuro da noite.Do contrário a minha vida é rasa e os meus sentimentos, pequenas pérolas falsas.Dito de outro modo: só tenho como acompanhar e me fazer acompanhar se descriminalizar em mim a solidão.
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